SÃO PAULO - O nervosismo do mercado externo ditou o ritmo dos negócios ontem no mercado doméstico. As preocupações com uma recessão mundial, além dos atentados terroristas no Oriente Médio, elevaram o risco Brasil para 819 pontos, com alta de 1,36% e, conseqüentemente, impulsionaram a cotação do dólar, que subiu 1,87%, para R$ 3. Os C-bonds, principais títulos negociados da dívida externa brasileira, caíram 1,69%, para 87% do valor de face.
A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) também não ficou inume ao abalo das bolsas no mundo. O Ibovespa caiu 3,62%, com giro financeiro, engordado pelo exercício de opções, de R$ 1,406 bilhão.
As incertezas sobre as economias americana e européia, a possibilidade de deflação nos Estados Unidos e na Alemanha e a rápida desvalorização do dólar americano frente a outras moedas deram fôlego aos rumores de que o Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano) e o Banco Central Europeu (BCE) poderão baixar os juros. A proliferação de ataques terroristas também contribuiu para amedrontar os investidores.
Segundo o economista-chefe da LCA Consultores, Luíz Suzigan, com uma possível recessão nos Estados Unidos, por exemplo, os países emergentes (incluindo o Brasil) seriam os primeiros afetados. O movimento de abertura de crédito, que teve início no começo do ano, poderia ser interrompido e as empresas voltariam à delicada situação do ano passado, com a escassez de financiamentos no mercado internacional. Só neste ano, instituições financeiras e empresas brasileiras conseguiram captar mais de R$ 5 bilhões no exterior.
Se a crise internacional se confirmar, argumenta Suzigan, o dólar poderá avançar rapidamente para o nível de R$ 3,50. No cenário interno, a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de cortar ou não os juros também vai interferir na cotação da moeda americana. A manutenção da Selic seria atrativa para os investidores estrangeiros, que pressionam o câmbio para baixo, diz o economista.
Para o gerente da área de câmbio da Corretora Souza Barros, Hideaki Iha, a tendência de queda do dólar se inverteu. Ontem, disse ele, nem a atuação da Petrobras vendendo dólares no mercado foi suficiente para conter a alta da moeda. "Com o avanço do câmbio, as empresas estão correndo atrás de `hedge (proteção), o que pressiona ainda mais o dólar", acentua. Outro fator que pode acentuar o avanço da moeda são os vencimentos da República a partir do próximo mês, diz Suzigan.